Voto útil, abstenções e outros três fatores que podem ser decisivos na reta final

Faltando menos de uma semana para que 140 milhões de brasileiros escolham seu próximo presidente, ainda há alguns fatores que podem influenciar a decisão final do eleitor

Publicado em 04/10/2018

Pesquisadores reuniram dados das mais recentes pesquisas e ouviu especialistas para entender quais seriam estes elementos.
A pesquisa do Ibope de questionou os entrevistados a respeito do chamado “voto útil”, a possibilidade de o eleitor deixar de votar no candidato de sua preferência para votar em outro que considere mais competitivo contra um terceiro. E 28% dos entrevistados naquela ocasião afirmaram que essa probabilidade era alta ou muito alta.
Essa porcentagem é semelhante às intenções de voto do líder da pesquisa, Jair Bolsonaro (PSL), e supera a do segundo colocado, Fernando Haddad (PT). Jair Bolsonaro é o candidato que mais pode se beneficiar do voto útil, por estar na frente na intenção de votos. Assim, o total de votos que precisa conquistar para vencer em primeiro turno é menor que o de outros candidatos. Isso entusiasma seus apoiadores a brigarem pela fatia de restante de voto anti-petista - dividido, principalmente, entre as candidaturas de direita ou centro-direita de Geraldo Alckmin, João Amoêdo (Novo), Henrique Meirelles (MDB), Alvaro Dias (Podemos).
Com relação a Haddad, além de estar mais distante de vencer no primeiro turno, outro fator dificulta que se beneficie de voto útil: a resistência da intenção de voto no candidato de centro-esquerda, Ciro Gomes. Há pelo menos três pesquisas, Ciro Gomes não cai, indicando que seus apoiadores não estão dispostos a abrir mão da sua candidatura em nome do PT.
O alto índice de rejeição dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de votos é a principal força por trás do eventual voto útil discutido acima. As menções às mulheres feitas pelos candidatos durante os debates de TV dão pistas de quão cobiçado é o voto feminino nesta reta final, por dois motivos principais: o primeiro é que elas compõem 52% do eleitorado do total; o segundo é que o candidato mais bem colocado, Jair Bolsonaro, é também o que tem o maior índice de rejeição feminina, 52% segundo o Datafolha. Lideradas por mulheres, no entanto, pode não ter tido o efeito desejado. Segundo uma pesquisa da USP, a maior parte das adesões ao protesto em SP veio de mulheres que já rejeitavam o político e o que se viu nas pesquisas posteriores foi justamente um avanço de Bolsonaro entre eleitoras mulheres. Apesar de continuar líder na rejeição feminina, a pesquisa do Datafolha publicada mostra que o candidato do PSL cresceu em intenções de voto entre as mulheres, passando de 21% para 27%. Do ponto de vista de Bolsonaro, que tem quase um terço das intenções totais de voto disponíveis, cerca de 20 pontos percentuais são de homens e 10 são de mulheres, aponta Carlos Melo.Segundo dados levantados, nunca havia existido uma diferença tão grande no voto de homens e mulheres no período pós-ditadura.

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O percentual de eleitores que dizem pretender votar nulo, branco ou se abster caiu para 8% (tendo chegado a 22%), segundo o Datafolha, mas esse grupo ainda pode ter um papel muito relevante no pleito.
A abstenção e anulação são importantes porque acabam reduzindo o patamar necessário para um candidato ser eleito em primeiro turno ele precisa ter mais da metade dos votos válidos, que excluem os nulos, brancos e abstenções. Na eleição à prefeitura de São Paulo em 2016, por exemplo, João Doria venceu com 53,2% dos votos úteis, mas teve votação menos expressiva (3,085 milhões de votos) do que o total de eleitores que anulou ou se absteve (3,096 milhões). Para Carlos Melo, do Insper, um último fator não pode ser descartado como potencial influenciador do voto na última hora: o imprevisível. Ele cita como exemplo novamente a disputa de 1988 pela prefeitura de São Paulo: poucos dias antes da eleição, uma ação do Exército contra uma greve em siderúrgica de Volta Redonda (RJ) resultou na morte de três operários, gerando uma onda de indignação pelo país. Isso acabou influenciando o desempenho de Paulo Maluf (à época visto como próximo aos militares) nas urnas e gerando uma onda de apoio à candidatura da então petista Erundina.

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